Segunda-feira, 21 de Maio de 2007

CATARINA; A NÃO ESQUECER.

Em 21 de Maio de 1954,  os operários da indústria têxtil no Porto e na Covilhã fizeram greve, o que originou a  intervenção das forças militares. Não consegui, por enquanto, encontrar material com que pudesse ilustrar estes acontecimentos, mas vou tentar obtê-los, porque este é o terreno que gostaria de continuar a pisar; SER SOLIDÁRIO COM QUEM LUTA PELOS SEUS DIREITOS..

Mas foi em 19 de Maio de 1954, que se deu o caso mais chocante na história da luta dos trabalhadores portugueses pelos seus direitos laborais. E é nesta hora que não podemos esquecer Catarina Eufemia, a ceifeira alentejana  símbolo da resistência ao regime totalitarista de Salazar.

 

 

AO RETRATO DE CATARINA

 

 

 

Esses teus olhos enxutos
Num fundo cavo de olheiras
Esses lábios resolutos
Boca de falas inteiras
Essa fronte aonde os brutos
Vararam balas certeiras
Contam certa a tua vida
Vida de lida e de luta
De fome tão sem medida
Que os campos todos enluta

Ceifou-te ceifeira a morte
Antes da própria sazão
Quando o teu altivo porte
Fazia sombra ao patrão
Sua lei ditou-te a sorte
Negra bala foi teu pão
E o pão por nós semeado
Com nosso suor colhido
Pelo pobre é amassado
Pelo rico só repartido

Tanta seara continhas
Visível já nas entranhas
Em teu ventre a vida tinhas
Na morte certeza tenhas
Malditas ervas daninhas
Hão-de ter mondas tamanhas
Searas de grã estatura
De raiva surda e vingança
Crescerão da tua esperança
Ceifada sem ser madura

Teus destinos Catarina
Não findaram sem renovo
Tiveram morte assassina
Hão-de ter vida de novo
Na semente que germina
Dos destinos do teu povo
E na noite negra negra
Do teu cabelo revolto
nasce a Manhã do teu rosto
No futuro de olhos posto

Biografia

 

 Catarina Efigénia Sabino Eufémia (nascida a 13 de Fevereiro de 1928 — morta a tiro a 19 de Maio de 1954) foi uma ceifeira alentejana analfabeta que, na sequência de uma greve de assalariadas rurais, foi assassinada, aos 26 anos, pelo tenente Carrajola da GNR em Monte do Olival, Baleizão, perto de Beja, Alentejo. Catarina tinha três filhos, um dos quais de oito meses, que estava no seu colo no momento em que foi baleada.

A história trágica de Catarina acabou por personificar a resistência ao regime salazarista, sendo adoptada pelo PCP como ícone da resistência no Alentejo. Sophia de Mello Breyner, Carlos Aboim Inglez, Eduardo Valente da Fonseca, Francisco Miguel Duarte, José Carlos Ary dos Santos, Maria Luísa Vilão Palma e António Vicente Campinas dedicaram-lhe poemas. O poema de Vicente Campinas "Cantar Alentejano" foi musicado por Zeca Afonso no álbum "Cantigas de Maio" editado no Natal de 1971. (clique aqui para ouvir um trecho dessa canção)

 

NAQUELE TEMPO...

 

O Alentejo, naqueles tempos difíceis, era uma região de latifúndios e de emprego sazonal, onde as condições de vida dos camponeses sem terras e assalariados eram extremamente difíceis. Esta situação sócio-económica e laboral penosa e dura agitou as massas camponesas da região a partir de meados da década de 40, vindo-se a agudizar nas duas décadas seguintes, gerando-se um permanente clima de agitação social no campesinato. Eram inúmeros tumultos e mais frequentes ainda as greves rurais, que acabavam sempre com a intervenção da GNR e eram devidamente vigiadas pela PIDE, em busca então de infiltrados e agitadores comunistas.

 

FACTOS
 
No dia 19 de Maio de 1954, em plena época da ceifa do trigo, Catarina e mais treze outras ceifeiras foram reclamar com o feitor da propriedade onde trabalhavam para obter um aumento de 2 escudos pela jorna. Os homens da ceifa foram, em princípio, contrários à constituição do grupo das peticionárias, mas acabaram por não hostilizar a acção destas. As catorze mulheres foram suficientes para atemorizar o feitor que foi a Beja chamar o proprietário e a guarda.
 
 
Catarina fora escolhida pelas suas colegas para apresentar as suas reivindicações. A uma pergunta do tenente da guarda, Catarina terá respondido que só queriam "trabalho e pão". Como resposta teve uma bofetada que a enviou ao chão. Ao levantar-se, terá dito: "Já agora mate-me." O tenente da guarda disparou três balas que lhe estilhaçaram as vértebras. Catarina não terá morrido instantaneamente, mas poucos minutos depois nos braços do seu próprio patrão (entretanto chegado), que a levantou da poça de sangue onde se encontrava, e terá dito: Oh senhor tenente, então já matou uma mulher, o que é que está a fazer?. O patrão, Francisco Nunes, que é geralmente descrito como uma pessoa acessível, foi caracterizado por Manuel de Melo Garrido em "A morte de Catarina Eufémia —A grande dúvida de um grande drama" como "o jovem lavrador da região que menos discutia os salários a atribuir aos rurais e que, nas épocas de desemprego, os ajudava com larga generosidade". O menino de colo, que Catarina tinha nos braços ficou ferido na queda. Uma outra camponesa teria ficado ferida também.
De acordo com a autópsia, Catarina foi atingida por "três balas, à queima-roupa, pelas costas, actuando da esquerda para a direita, de baixo para cima e ligeiramente de trás para a frente, com o cano da arma encostada ao corpo da vítima. O agressor deveria estar atrás e à esquerda em relação à vítima". Ainda segundo o relatório da autópsia, Catarina Eufémia era "de estatura mediana (1,65 m), de cor branco-marmórea, de cabelos pretos, olhos castanhos, de sistema muscular pouco desenvolvido".
Após a autópsia, temendo a reacção da população, as autoridades resolveram realizar o funeral às escondidas, antecipando-o de uma hora em relação àquela que tinham feito constar. Quando se preparavam para iniciar a sua saída às escondidas, o povo correu para o caixão com gritos de protesto, e as forças policiais reprimiram violentamente a populaça, espancando não só os familiares da falecida, outros rurais de Baleizão, como gente simples de Beja que pretendia associar-se ao funeral. O caixão acabou por ser levado à pressa, sob escolta da polícia, não para o cemitério de Baleizão, mas para Quintos (a terra do seu marido o cantoneiro António Joaquim do Carmo, o Carmona, como lhe chamavam) a cerca de 10 km de Baleizão. Vinte anos depois, em 1974, os seus restos mortais foram finalmente transladados para Baleizão.
Na sequência dos distúrbios do funeral, nove camponeses foram acusados de desrespeito à autoridade; a maioria destes foi condenada a dois anos de prisão com pena suspensa. O tenente Carrajola foi transferido para Aljustrel mas nunca veio a ser sequer julgado em tribunal. Faleceu em 1964.
Ao torná-la numa lenda da resistência anti-fascista, o PCP teria adulterado alguns pormenores da vida e morte de Catarina Eufémia. Designadamente, fez-se crer que Catarina era militante do Partido Comunista no comité local de Baleizão, desde 1953, o que é, possivelmente, falso. A escolha de Catarina para porta-voz das ceifeiras terá sido mesmo influenciada pelo facto de não existirem as mínimas suspeitas de ser comunista. Aliás, Mariana Janeiro, uma militante comunista várias vezes presa pela PIDE, sempre rejeitou a hipótese de que Catarina estivesse ao serviço do partido. Por seu lado, António Gervásio, antigo dirigente do PCP no Alentejo, afirma que Catarina era de facto membro do comité local de Baleizão do PCP desde 1953. Também a União Democrática Popular reivindicou a militância de Catarina, tendo, mesmo, erigido um pequeno monumento em sua memória, que foi destruído por apoiantes do PCP em 23 de Maio de 1976.
Afirmou-se também que Catarina Eufémia estaria grávida de alguns meses no momento em que foi assassinada. Aparentemente, essa informação teria vindo de outras ceifeiras, a quem Catarina alguns dias antes de ser assassinada teria revelado o seu estado amenorreico. Durante a autópsia, o povo de Baleizão juntou-se no largo da Sé de Beja, a poucos metros do Hospital da Misericórdia, clamando em desespero e revolta: "Não foi uma, foram duas mortes!". No entanto, o médico legista que a autopsiou, Henriques Pinheiro, afirmou repetidamente, inclusive depois da revolução de 1974, que as referências a uma gravidez eram falsas.
 
 

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente

Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método obíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua
       João Brito Sousa
publicado por SOUSINHA às 12:36
link do post | comentar | favorito
|
4 comentários:
De cindamoledo a 21 de Maio de 2007 às 14:37
Gostei de ler, sempre admirei Catarina Eufémia...
"quem viu morrer Catarina, não perdoa a quem a matou". Belo texto. Cumprimentos e saúde
De SOUSINHA a 21 de Maio de 2007 às 15:48
Viva,

Muito obrigado pela visita e tudo de bom para si.
Queira aceitar os meus cumprimentos.
João Brito Sousa
De Manel Piorna a 21 de Maio de 2007 às 23:13
Caro João! Não há palavras para definir este momento. Como alentejano, só te posso agradecer esta grandeza da minha querida Planície. Em outros tempos, criança ainda, tive a noção da amargura deste povo.
Ari dos Santos ao vivo! Grande companheiro, camarada e amigo. Tive o prazer de o ouvir falar e recitar em campanhas conjuntas.
O Zeca é meu companheiro nas viagens pela Planície.
Parabéns! Até que as mãos te doam! Continua! Sempre com a mesma força meu Poeta meu Povo!
Com um forte e amigo abraço, Manel
De SOUSINHA a 22 de Maio de 2007 às 00:28
Viva ó Manel.

A Catarina é nossa.

ZECA AFONSO

--------------------------------------------------------------------------------
Ó Cavador do Alentejo




Ó cavador do Alentejo
Quem te viu e quem te vê
Há muito tempo que te não vejo
Cantar sem saber porquê

Ó terras do sossego
Baleizão meu bem querer
Há muito que te não nego
Os meus olhos pra te ver

O povo Catarina o povo
Sem ter pão para comer
E o grão do teu trigo novo
Baleizão a apodrecer

Manhãs de sol no chão sagrado
- Catarina há-de saber -
Ó terras ao campo amado
Quem vos puderá valer

Aí vai um abraço
JOÃO


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. FICA SUSPENSO ATÉ NOVA OR...

. A HORTA BIOLÓGICA

. AS GEADAS

. A CARVOARIA DO PASSOS

. UTENSÍLIOS AGRÍCOLAS

. O TREINO DO SENHOR CARVAL...

. FARO DENTRO DAS MURALHAS

. UM BOM FIM DE SEMANA

. IGREJA DE S. PEDRO

. A RUA DOS BRACIAIS

. AO POETA MANUEL JOSÉ E F...

. A HORTA DOS BRITOS

. O MEU PRIMO SEBASTIÃO BRI...

. AS MOÇAS E OS MOÇOS DO M...

. POESIA DO DR. UVA

. ALÓ SANTA BÁRBAAR DE NEXE...

. FOMOS JOGAR À FALFOSA.

. ESTAMOS A VOLTAR.

. TUDO CHEGA AO FIM.... ATÉ...

. DA IMPRENSA

. VIVA A SOLEDADE URBANO.

. HOUVE FESTA NO SÍTIO DA A...

. AS HORTAS E A GRICULTURA...

. A FRASE DE HOJE

. PORQUE HOJE É DOMINGO

. BOM FIM DE SEMANA PARA TO...

. VELHO DO RESTELO

. CHEGUEI...

. EU NÃO POSSO ACREDITAR...

. A VIDA DIFÍCIL DOS MIÚDOS...

.arquivos

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

.favoritos

. SANTA BÁRBARA DE NEXE

blogs SAPO

.subscrever feeds