Terça-feira, 22 de Maio de 2007

OS VELHOS DOS BRACIAIS

 
" A velhice é uma noite maravilhosa onde brilham  as estrelas."
                            
                                                                                                              Teixeira de Pascoais.
 
Depois do meu avô já falei aqui, falemos hoje de outros velhos, velhos porreiros e amigos, como o velho MANUEL GARROCHO, pai da Custódia e sogro do Joaquim Rebola, que tinha um neto que nunca mais soube nada dele, nem dos pais nem de ninguém. O Ti Garrocho era um homem da cultura, sabia ler, sabia portanto o que os outros não sabiam. Um dia, encontrou o meu tio Luís Alcantarilha Filho e perguntou-lhe, como já disse aqui uma vez, óh Luís, não viste por aí o ferroviário?... e o Luís perguntou-lhe o que é isso senhor Manuel... então não sabes o que é um ferrroviário?... não, disse o meu tio .. óh homem tu és um analfabeto... 
O velhote mais porreiro lá dos Braciais era o ti Manuel Simão, pai do Domingos, do Manuel e do Zé Simão, gente boa e trabalhadora do Monte Sheriff. O ti Manel andava ali pelas hortas, trabalhava na agrícola e uma vez falei com ele, encostado `a enxada e sentado na aberta. Então Ti Manel o que é que me conta?...e ele, olha João só te sei dizer que muito tempo não posso durar. Nunca mais me esqueci desses minutos que estive a falar com o tio Manel Simão. Mas não vamos falar disso agora.
No Monte Sherif vivia também a Tia Luísa Apolo, irmã do meu avô e Mãe do nosso primo, actor e cantor Manuel Patuleia e do Zé Patuleia, que vivia com a velhota Encarnação pois já não lhe conheci o marido. A velhota Encarnação morreu, porque pôs um bocado de cal de caiar paredes em cima de uma ferida uma pé e foi-se. O Primitivo, filho do Amaro que era asmático, pegou num arame de fardo de palha, foi ao palheiro da Tia Luísa, deu-lhe um laço numa das traves do telhado e foi-se embora. A Tia Luísa ia almoçar muitas vezes a casa do meu avô, eram dois temperamentos fortes e brigavam por tudo e por nada. Dizia a Tia Luísa para o meu avô:- o que é que queres Zé?.. Dá-me o pão, dizia o meu avô. E ela, não queres mais nada?...   `E o meu avô logo, óh sua santa dê o pão se puder....
Em frente ao meu avô morava o ti Carrega, o pai do Joaquim e da Felisbela casado ou junto, não sei bem, com a Tia Felicidade. Um dia o meu tio Felício que era ainda rapazote, foi-se às parreiras do Ti Carrega e arrancou umas uvas, o velhote veio atrás dele e, não o conseguindo alcançar gritou-lhe: -Ó Felício levas todas... não. Ti Carrega, velho amigo.
(continua).
João Brito Sousa
publicado por SOUSINHA às 00:08
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4 comentários:
De a silva a 22 de Maio de 2007 às 21:56
Já aqui referi, por mais de uma vez, o mérito das tuas crónicas sobre os tempos do então, dos idos da nossa juventude. Sempre tenho realçado como elas têm impacto em todos quantos as lêem, pela qualidade da prosa, no meu sentir, bem recheada de um bucolismo contagiante. E, bem assim, pelo despertar de memórias que provoca pelo tal efeito da associação de ideias.
Mais ainda, pela mensagem que transmitem à juventude da vivência daqueles tempos.

Como entra no nosso ouvido a musicalidade dum carinhoso "Ti" Manel !!
Como faz derreter, pela emoção gerada, o mais puro do nosso sentimento a alusão à "Tia" Luzinha !

Hoje, o contrastante e cerimonial "Dona" corta seriamente o nosso sentimento por mais amistoso que ele possa ser. Os putos das nossas cidades, penso, não sabem sentir a importância daquilo a que me refiro. Acresce ainda que naquele tempo um velho nos merecia um tipo de respeito muito diferente do que hoje se vê manifestado a cada passo.
E, com que ar embevecido e interessado se ouvia então as histórias que todos eles tinham para nos contar! Histórias da vida, histórias que hoje os putos das "play stations" e dos desenhos animados que a TV lhes impinge, recusariam ouvir, por demasiado banais e desinteressantes.

Hoje os nossos velhos são depositados em Lares da Terceira Idade onde só se podem fazer ouvir uns aos outros, sem tempo, na fugaz visita que os netos lhes fazem semanalmente, para lhes contar as suas belas histórias.

Coisas do agora! Melhores?! Piores?!
Que o diga quem souber.

Venham daí mais memórias ! Sempre!

Aquele abraço do
arnaldo silva
felizmente reformado
De SOUSINHA a 22 de Maio de 2007 às 22:09
CARO AMIGO,

Como disse a Celina, brilhante texto.
Velhos para o LAR só se for para acabar mais
depressa.

Um abraço do
BS
De a silva a 23 de Maio de 2007 às 00:17
A Celina disse?

Onde?

Quando?!

Gostava de saber dela!

arnaldo silva
felizmente reformado
De SOUSINHA a 23 de Maio de 2007 às 06:45
OLÁ VELHOTE.

BOM DIA.

A CELINA DISSE NO POST, CENAS DO SACRAMENTO À LAPA, A ÚNICA VEZ QUE O ARNALDO ME DECEPCIONOU, PUBLICADO EM 18.05.2007. Vai ver.

BS

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