Quarta-feira, 23 de Maio de 2007

CENAS DO SACRAMENTO À LAPA

QUEM COMEU O BIFE NA MADRAGOA?....
 
 
 
 
 
 
 
 
Não sei bem porquê, mas eu estava em casa nesse dia. Lia o jornal quando me aprece vindo do Instituto Industrial, um aluno do Curso de Construção Civil, que acho que não deva dizer o nome mas que vamos aqui apelidar de Engº MMM, todo muito bem vestido e vinha feliz, de tal maneira que eu lhe perguntei onde é que ele tinha ido..
-         Onde é que foste todo selecto?
-         Fui a casa da Júlia.
-         Mas quem é a Júlia?
-         Isso não é conversa para agora; depois falamos.
-         E agora.. onde é que vais?
O Engº MMM fazia o sinal de boca calada, passando o indicador direito sobre os lábios que queria dizer isso, enquanto levantava os braços e os colocava quase cruzados em frente ao peito e, com o indicador da mão direita, apontava para a zona do pulso da mão esquerda, onde deveria estar o relógio ÓMEGA mas não estava e disse: Vou buscá-lo ao prego, sabes o que é?
Eu efectivamente não sabia, mas o Engº MMM estava ao corrente de tudo e disse-me de seguida:
-         Diz à malta que, quando eu vier do prego com o ÓMEGA vai tudo aos fados ouvir o César Morgado, ouviste?... 
-         Ok   eu vou já preparar-me para isso. Podes ir descansado.
O MMM saiu e eu fiquei por ali quando entra o Dr. Pitrónio, esposo da dona da casa que vinha fugido da Pide e disse-me logo, ó Brito os gajos da Pide não me largam pá, é o dia inteiro atrás de mim pá, sabes lá. Estava eu nesta conversa com o Dr Pitrónio , chega a a esposa, a D. Mariana e a irmã e levam o senhor para dentro e eu vim para o quarto.
 
.   Quando estavam todos, esclareci o convite do MMM e a malta foi parar à Madragoa, ali para o lado de Santos. Chegámos à hora do jantar e já havia fados cantados pelo César Morgado. Pedimos um bife cada um para acompanhar os fados. Veio o bife e começámos a comer quando o fadista começou a cantar . Todos começamos a comer o bife menos o MMM que estava entusiasmado com o fado, de costas para o bife e de frente, ouvindo atentamente, o fado canalha. O João Bruto que comia um bife num minuto, desta vez comeu dois bifes em dois minutos, o dele e o bife do MMM... de tal modo que, quando o cantor acabou de cantar, o MMM voltou-se e nada de bife: foi o fim da picada.
 
Bom o MMM ficou tão avariado que desapareceu dali e só o encontrámos no cacau da ribeira às quatro da manhã, cantando com os estivadores ...que era o que ele adorava. E na sua voz dolente cantava Marceneiro.
 
ALMAS CRENTES...
POVO RUDE
HOJE É DIA DA PROCISSÃO
DA SENHORA DA SAÚDE...
 
 E o estivador, dava-lhe assim: com música do fado Vianinha..
 
 
Vejo tanto burro mandando
Em homens de inteligência !
Que às vezes fico pensando
Que a Burrice é uma ciência.
  
E depois abraçavam-se...  e choravam abraçados a cultura, o trabalho e o fado..
 
E venha um bife.
                                                                     João Brito Sousa.
publicado por SOUSINHA às 07:47
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2 comentários:
De a silva a 23 de Maio de 2007 às 13:32
O bife!...
Do bife, sua cena e consequências, não me lembro.
Talvez o episódio tenha ocorrido nos tempos que eu tinha outros afazeres, por terras de Angola. Aqueles afazeres que arranjaram à maioria dos mancebos da nossa geração, cujo propósito era defender a honra duma pátria ferida - assim mo impingiram - mas que até hoje não se me esclareceu em absoluto no meu entender das coisas.
Do Engº MMM, que julgo adivinhar, sem margem de erro, quem é, lembro-me bem. E recordo com bom agrado as suas particulares capacidades para cantar o fado.
E, do César Morgado, nem se fala! Como cantava! Embora nunca tenha percebido bem aquilo de "beijar e martirizar com a ponta duma navalha!". Questóes de rima, quiçá! Ou farta canalhice de um Fado Canalha !?

Pitrónio, D. Mariana e irmã, necessariamente, Sacramento à Lapa, irremediavelmente, bons tempos, camaradagem, amizade. Cenas próprias da irreverência duma juventude que despertava para uma outra faceta da vida, qual seja, acabar curso, encontrar trabalho com ele consentâneo , casamento, filhios... Outras responsabilçidades bem diferentes.

A nossa amiga Celina lembrou o famoso casaco de antílope que se pavoneava pela Estrela em corpos diferentes, como peça comum, pertença de ninguém. Esse casaco repousa hoje num armário da minha casa acompanhado do meu fato de casamento. Pieguices de quem sempre desejou preservar recordações de meritórios momentos duma vida que vale a pena recordar.

O cacau da Ribeira! O culminar duma directa! Como era retemperador de energias esse cacau, com uma "broa" de que ainda recordo o agradável paladar e como era castiço o ambiente que se vivia no bar - tasquinha ? - onde era tomado. Uma realidade duma Lisboa que nem todos tiveram a ousadia de conhecer. Mas que valeu a pena...

Aquele abraço do
arnaldo silva
felizmente reformado
De SOUSINHA a 24 de Maio de 2007 às 09:15
VIVA.

Muito belo texto.
Não sabia que eras tu que tinhas ficado com o casaco.
Aí vai um abraço do
BS

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