Sexta-feira, 1 de Junho de 2007

COMENTÁRIO DE A.SILVA COM DIREITO A POST

 

 

 

  

Vergílio Ferreira (1916-1996)

nasceu em Melo, Serra da Estrela, e faleceu em Lisboa.
Frequentou o Seminário do Fundão (1926-1932) e licenciou-se em
Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1940).
A par do trabalho de escrita, foi professor de Português e de Latim em várias escolas do país. Inicialmente neo-realista, depressa Vergílio Ferreira se deixou influenciar pelos
existencialistas franceses (André Malraux e Jean-Paul Sartre),

 

VF iniciou um caminho próprio a partir do romance Mudança (1949). É considerado um dos mais importantes romancistas portugueses do século XX, tendo ganho vários prémios, entre eles o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (ganho duas vezes, primeiro com o romance Até ao Fim e depois com o romance Na tua Face), e o Prémio Femina na França com o romance Manhã Submersa

 

Aí  vai o parágrafo inteiro donde retirei a frase que elegi como o FRASE DE HOJE.

 

            " E havia tanta vida ainda em ti para eu também ir vivendo. Porque  a vida de quem amamos não é só a que lá está mas a que nós lá pusemos para depois irmos gastando. Ainda agora, vê tu. Amar-te ainda agora na memória  difícil. Na memória estúpida sem razão. Porque não se trata afinal do que foste, era bom que entendesses. O que foste tinha um proprietário que eras tu e mesmo eu que também tinha direito...."

 

 

E o comentário de A.SILVA com direito a post.

 

" Vergílio Ferreira foi um grande escritor e as suas obras estão aí para que continue a se-lo. Mas... Reconhecer a grandeza de uma obra não significa, necessariamente, gostar dela. Pelos vistos não serei o único a não apreciar sobremaneira os escritos de Vergilio Ferreira. Mas, embora não apreciando a sua forma des escrever, achando a construção das suas frases um quase emaranhado de palavras que cortam a fluência da leitura e dificultam a fácil apreensão dos conceitos e ideIas que pretende transmitir , tal como Sartre, não concordo que se diga que ele não está entre os maiores escritores. Talvez os largos anos de estudo seminarista, no domínio do latim que proporciona, aportando um vasto e profundo conhecimento das palavras o tenha conduzido a essa forma de escrever. Reportando-me à frase que escolheste, deixa-me realçar os dois conceitos, bem distintos, que lá moram: que não há vida de dois amantes sem a inevitável e recíproca assimilação da vida do amado, um e que o relacionamneto continuado leva ao desgaste, muitas vezes â rotura da relação, o outro. Mas permite-me acrescentar que entendo e defendo que a longevidade duma relação é directamente proporcional à quantidade de vida que cada um dos dois consegui receber do outro. E perfilho a ideia de que a rotura - duma relação a dois - só acontece quando o egoímo de um não permite a absorção da vida do outro. Neste caso, a paixão descamba de imediato no desinteresse, sem passar pelo estado intermédio. E a separação é inevitável porque morre -ou nós gastámos, como diz VF - a porção de vida que o outro absorveu. Bem visto! Qualquer dia até começo a gostar de Vergílo Ferreira... arnaldo silva felizmente reformado  

 

João Brito Sousa

publicado por SOUSINHA às 15:52
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3 comentários:
De A SILVA a 2 de Junho de 2007 às 23:35
Amigo Brito!
Quanta honra!
Os meus agradecimentos.

Ainda bem que publicaste esse excerto de VF para que possa, uma vez mais, "bater" na sua forma de escrever.
Como se digere, na leitura "en passant", "...Ainda agora, vê tu. Amar-te ainda agora na memória difícil. Na memória estúpida sem razão. Porque não se trata afinal do que foste, era bom que entendesses. O que foste tinha um proprietário que eras tu e mesmo eu que também tinha direito...." ??!
"Amar-te ainda agora na memória difícil" !!!
Amar alguém "ainda e agora..." na "memória", na "memória difícil".

Desculpem! Preciso de um tradutor!
É óbvio que o mal da questão reside em mim, um ilustre ignorante destas coisas da escrita, e não no grande escritor que é VF. Mas...
Mas...amar ainda e agora, não há aqui uma redundância ? Se ainda se ama, ama-se também agora, ou não?!
Por outro lado, ama-se na memória?! Mas é aí que um sentimento como o amor se instala e permanece?!
A memória não será apenas o meio que aporta o sentimento ao seu devido local?!
E isso da "memória difícil" é exactamente o quê?! Falha de memória que leva ao esquecimento de um amor?! BIzarro...
Ou, precaridade na capacidade evocativa de "como o amado tinha sido" ?! Impensável...
Quem ama não esquece!
E que dizer de uma "memória estúpida sem razão" ?!
É uma estupidez lembrar-mo-nos de um ser amado?! Por muito que se tenha saído magoado desse amor, nunca será estúpido recordar esse sentimento. Pelo prazer que gerou. Pela felicidade que se viveu. Pela intensidade do fluxo de emoções que se trocaram. Por...
Vergílio Ferreira sabe-lo-ia esclarecer, certamente.
Eu, não!

arnaldo silva
felizmente reformado
De SOUSINHA a 3 de Junho de 2007 às 16:38
Meu caro SILVA.Sobre teu comentário à escrita de Vergílio Ferreira direi o seguinte:
Vergílio Ferreira iniciou a sua actividade literária na década de quarenta do século XX tendo sido seduzido pela força do neo-realismo, um movimento literário surgido em Portugal no terceiro decénio do século XX que, inspirado na literatura norte-americana de preocupações sociais e no romance regionalista brasileiro, procurou instaurar uma literatura comprometida com os princípios do realismo socialista tematizando sobretudo as condições de vida dos camponeses.
VF irá sofrer uma sensível mudança que o tornou marginal à ideologia marxista, mas que o afastará também do catolicismo. O que essencialmente o fez mudar, como ele próprio escreveu, não foi a aspiração ao humanismo e à justiça, mas tem como orientação um conceito prático de justiça e de humanismo.
O excerto que te enviei é retirado do livro “EM NOME DA TERRA” acerca do qual o Francisco José Viegas, professor universitário, escritor, jornalista e crítico com um programa na TV sobre Literatura, diz:

“V.F. é único e importante. O livro é bom. Mas pouco ou nada traz de novo

Sobre isto V.F. diz: Eu penso que o que há de igual no meu livro é ser meu. Tudo o mais é variada circunstância de eu não poder ser outro.

Por outro lado o Eduardo Lourenço (175 ) ensaísta e professor na Sourbone diz que o livro é bom... grande livro, grande Vergílio etc..etc. o crítico literário Eduardo Prado Coelho, diz igualmente que o livro é bom, outros anónimos dizem o mesmo e há um ou dois que dizem não presta..

O livro tanto quanto eu sei vendeu-se mal. E é aqui que está o verdadeiro indicador. No estudo que estou a fazer sobre a sua obra, noto que também ele não acredita muito naquilo que vale. Todavia é um autor premiado em França, o que não é fácil. Eu leio V..F.. com prazer, talvez levado pela musicalidade das suas frases e porque, sejamos sérios, consigo recolher da sua escrita alguma informação, que trabalhada consegue moldar o meu carácter. Ora, este é o grande escritor, aquele que consegue melhorar o carácter do leitor. .

Aí vão outras frases que me tocaram:

“ Não havia por ali ninguém, como nos convinha. Porque os grandes actos da vida,
querida, como deves saber, nunca devem ter público.”
“Então quem existe é o mundo e nós, para o mundo existir. De nós à vida há um vidro muito puro, muito límpido e o corpo é o vidro. Vai levar tempo que ele rache e crie lixo para existir, mas por enquanto não...”

“ E tu sabes na juventude a moeda de troca é a força...”

“ Porque o homem, minha querida, tem sempre em si um outro de si e só num tarado é que os dois coincidem. Também não sabia bem porque o fiz, agora sei. ..”

“Só há uma linguagem para se falar de um corpo fora da Anatomia, mesmo que a paixão diga que não é verdade. Mas há eu sei-a porque tenho mais imaginação sensível...”

Aceita um abraço do

BS

De A SILVA a 4 de Junho de 2007 às 10:32
Olá!

Não pretendo menopolizar este teu espaço. Muito menos pretendo convencer-te de que devas deixar de apreciar as obras de VF. Também não vou pelo caminho de tentar denegrir ou menosprezar o indiscutível mérito do escritor ou de pretender diminuir o seu peso no panorama literário português contemporaneo .
Apenas e tão só, como leitor, não aprecio a sua forma de escrever, a sua maneira de expressar as suas ideias, se se quizer, a forma como coloca as palavras nas suas frases. Insisto, VF não é um escritor de leitura fácil e, até mesmo as ideias que publica não são de fácil assimilação. Muitas delas, como as da maioria dos existencialistas, consideravelmente discutíveis.

E não vou muito longe na procura de exemplos para alicerçar a minha opinião. Pego já e de imediato nas frases que transcreves.

" Os grandes actos da vida... nunca devem ter púiblico"
Como assim?! Provavelmente estava a referir-se ao acto da procriação... Sim! Porque todos os actos grandes do ser humano, para que sejam grandes, têm necessáriamente que ter publico! Ou então não serão grandes... Serão assim como que atitudes condenáveis que só muito subrepticiamente se podem levar a cabo!

"Então quem existe é o mundo e nós, para o mundo existir".
Não posso estar de acordo! O mundo existe para além do Homem. Independentemente da sua vontade e da sua existência. O mundo está aí, onde o Homem foi colocado, para nele existir.
Só um exagerado conceito da prevalência do ser pode defender que o mundo sem o ser humano não existe! Que o Homem influencia, algumas vezes de forma determinante, a inércia da existência do mundo, deacordo. Que este não exista sem aquele, insisto, não colhe.

" O Homem tem sempre em si outro de si e..."

Mero jogo de palavras! Bonito de se ler. Musicalidade como tu dizes. Mas...
Espreme a frase. Não tem sumo aproveitável.
O complexo humano é só um. Só a diversidade dos angulos das suas reacções pode ilusoriamente levar â conclusão da existência de vários em um. São as características do estímulo que condicionam a reacção. Esta não difere porque exista um eu que hoje reage duma maneira e um outro eu que no dia seguinte se comporte de maneira diferente.

Vou ficar por aqui.
Quero e desejo que VF continue a ser grande.
Que viva Vergílio Ferreira!

arnaldo silva
felizmente reformado


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