Quarta-feira, 13 de Junho de 2007

UM GRANDE DOCUMENTO HUMANO.

 

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             (vila do ALGOZ)

 

ERA ASSIM NOS ANOS CINQUENTA
 
Algoz.
 O outro Algoz do Algarve. Algoz está na minha memória, não como carrasco, mas como tábua de salvação, aí nos finais dos anos cinquenta. Por essa altura o meu pai, ferroviário de profissão, foi viver para Messines, numa daquelas transferências alheias à sua vontade, apenas por efeito de mais uma das promoções na carreira profissional que abraçara. Algoz dista de Messines, por via rodoviária, algo como uns bons onze kilómetros.
 
Naquele então eu era aluno da Escola Comerial e Industrial de Faro. O meio de transporte que utilizava para me deslocar diariamente de Messines para Faro era o combóio. Como filho de ferroviário o passe anual era gratuito o que sobejamente compensava a impossibilidade económica de me ser paga uma pensão em Faro.
 
Mas o raio do comboio disponível naquela altura - o único! - era o chamado comboio correio, proveniente de Lisboa, ou do Barreiro para os mais preciosistas, que partia da estação de Messines às 4:58 da madrugada e chegava a Faro às 6:12. Como facilmente se compreenderá, estar todos os dias preparado, isto é, dormido, vestido e comido, àquela hora, quando se tem quinze anos, não é pera doce!
 
Acontecia, portanto, que muitas vezes o comboio correio passava a caminho de Faro e eu ficava por Messines, a ve-lo passar! O diabo do maquinista não se condoía nem perdoava o atraso de um imberbe rapazote que cometia o pecado de se atrasar na sua chegada à estação.
 
A única alternativa que me restava para estar em Faro atempadamente, evitando faltar às aulas, era apanhar uma automotora que passava em Algoz por volta das 7:14 que, vinda de Lagos, se destinava a Faro, levando até lá toda a rapaziada que ali estudava e era apanhada nas estações de Tunes, Albufeira, Boliqueime....
 
Era aí que estava a dita tábua de salvação. O meu pai tinha uma pasteleira, uma PHILIPS de roda 28, sem mudanças, pesada como o caraças, mas que, fazendo força nos pedais, andava! Então, equipado com uma incómoda pasta de coiro mal curtido, mas muito resistente, e um saco fornecido de farnel para alimentar o dito imberbe até âs nove da noite, horas a que chegaria a casa de volta dos compromissos escolares, lá me montava na preciosa bicicleta e partia em demanda de Algoz onde encontraria a salvação para a perda do comboio correio. Mas Algoz, naquele transporte, ficava bem longe de Messines.
 
Tão longe que nunca me foi permitido conhecer a aldeia daqueles tempos. Não havia pernas que chegassem para outros devaneios que não fossem os de subir os degraus da automotora, encontrar um banco disponível e entregar-me nos braços de Morfeu, até que a cambada entrante nas estações subsequentes, na sua característica e incontida algaraviada, me fazia voltar ao mundo dos acordados.
 
Esse é o Algoz que tenho ma minha memória. E que me deu muito prazer recordar agora! E que me forçou a roubar-te esta porção do teu espaço para o evocar. Obrigado!
 
arnaldo silva felizmente reformado

 

MEU COMENTÁRIO.

 

Sem comentários.é para ler e meditar. 

E o texto não refere as cabeçadas  do JOÃO CUCO à entrada da estação de Almancil.

Aí vai um abraço do

João  Brito Sousa.

publicado por SOUSINHA às 05:59
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2 comentários:
De Sonhador de Alpendre a 14 de Junho de 2007 às 10:14
Deixei-me embalar pos esta sua curta estória, saudosamente deliciosa. Carissimo, você tem um talento especial para este tipo de narrativa. De facto fiquei completamete absorto na leitura deste pequeno conto. E venha de lá o João Cuco e as suas cabeçadas....

sonhos respeitosos

Ps: Não deixei de ficar comovido com o "miúdo" que de pasteleira em punho se "amandava" ao comboio em plena madrugada, regressando já noite dentro a casa. Vida dificil a sua e a de todos os "miúdos" desse tempo.
De SOUSINHA a 14 de Junho de 2007 às 12:09
Viva,

O seu comentário e teve direito a post.
Muito obrigado pela sua sinceridade.
Aceite os cumprimentos do
João Brito Sousa

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