Quarta-feira, 13 de Junho de 2007

AS HORTAS DO PATACÃO.

Ao meu primo CARLINHOS. Ele é o Lourinho que vai ai citado na crónica...
Nas aulas do Dr. Uva, que lá na Escola Comercial nos ensinava Noções de Comércio e Direito Comercial, falava-se às vezes da periferia da cidade. Nessas aulas, que eram constituídas por “chamadas”, diálogos valorizados sobre os conhecimentos de matérias já dadas, sim, porque o Uva era único, ensinava questionando/chamando, depois de ver o caderno em dia, claro – o velho era lixado – então diga lá qual é a melhor espécie de depósitos no Banco... será à Ordem, a Prazo... com Aviso Prévio.. e o aluno... é com Aviso Prévio senhor Dr,... ai é, então não será à Ordem sua besta.... o senhor quer... tem. As aulas do Uva eram mais ou menos assim.
Quero deixar aqui claro que, referir-me ao Dr. Uva,   tratando-o por , o velho ou o Uva, não belisca nada a grande personalidade de educador que possuía o nosso Dr. José de Sousa Uva. Sim, porque o Uva faz parte do nosso património cultural e não o cedemos a ninguém. E tenho a certeza, que todos os seus alunos o trazem no coração. Por isso, nem eu estaria disponível para ser mal educado aqui, ao tratar o Dr. Uva por o velho ou por o Uva, nem os meus colegas de antes e depois de mim o tolerariam. Nesta crónica será o velho ou o Uva, com todo o respeito, consideração e amizade.
Um dia foi chamado à lição o Lourinho, que é do Patacão. Cumpridas as formalidades, que se resumia a ver o caderno diário, então mostre lá o caderno, dizia o velho que entretanto perguntava ao aluno, então diga lá, o senhor é de aonde?... eu senhor Dr., sou do Patacão... ah!... essa zona das hortas, que vai do Patacão, passa pela Conceição de Faro e chega ao Rio Seco, isso é uma grande zona de hortas, é uma área de grande contributo para a economia do País. E o Uva, dissertava. O senhor já imaginou o emprego que essa zona cria, o emprego que dá aos alentejanos, que descem no Verão até ao litoral, desde que apareceu a máquina debulhadora, que agora faz o trabalho de vinte alentejanos, as culturas que produzem, nomeadamente, milho, batatas, algum trigo, centeio, luzernas e trevos para os gados, repolhos cujas podas se vão buscar à Luz de Tavira, para de seguida serem dispostas nesses terrenos, culturas de couve flor, rábanos, e rabanetes, nabos e nabiças, alfaces e os grandes pomares de laranjeiras que há nessas hortas, uma pequena criação de gado bovino e suíno, este de importância fundamental na subsistência dos habitantes da região, que tem no toucinho uma grande parte da sua alimentação, a criação de galináceos, patos, gansos, perus e coelhos, é isto que constitui a riqueza de uma região ou de um povo, o senhor sabia disto, sim senhor Dr, sabia e, curiosamente, a Sociedade Recreativa do sítio até se chama   Sociedade Recreativa Agrícola do Patacão, ora aí está, agrícola .... a basesinha... dizia o velho. É a isto que se chama Economia, o senhor sabe o que isso é, sim senhor Dr, sabia sim, Economia é o estudo do processo de produção, distribuição, circulação e consumo dos bens e serviços que constituem a riqueza de uma região.   Muito bem, está terminada a aula. E levou 12 valores que para o velho Uva era para aí um 19 para qualquer outro.
 
Hoje as hortas do Patacão e outras, desapareceram. A cidade estendeu-se e precisou de terreno A primeira a desaparecer, foi a horta das Figuras que tinha três engenhos, para uma grande área de regadio. Eram terrenos de areia, ressequidos, que consumiam muita água nos Verões daquela altura, bastante quentes...
 
DEDICO ESTA CRÓNICA AO MEU PRIMO E AMIGO CARLINHOS,  COM VOTOS  DE ÓPTIMA SAÚDE.  

João Brito de Sousa

publicado por SOUSINHA às 06:22
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3 comentários:
De A SILVA a 13 de Junho de 2007 às 12:08
O Dr. Uva !

O velho - velho afectivamente, claro! - era um espectáculo! Nenhum dos seus alunos o poderá ter esquecido, digo eu.
Bem me lembro dele e do famoso artº. 2º. do Código Comercial, indispensável para saber classificar os actos de comércio. Figura agradável e simpática era, no entanto, intimidante na forma como nos tratava aquando das chamadas. Eu caí de paraquedas na turma dele, vindo lá das Gouveias, apanhando o decurso das aulas do primeiro trimestre em fase um tanto adiantada, pelo que o conhecimento da matéria dada era nulo. Caderno diário era algo para o qual eu nunca tive muita habilidade para organizar e, agravante das agravantes, sentindo-me desenraizado naquela famoasa turma do 2º, 4ª, não conseguira atempadamente que alguém me emprestasse um para copiar.
Quem conheceu o Uva facilmente imaginará o que se passou e o que ouvi quando foi a minha vez de responder à chamada! Sem caderno diario actualizado, sem conhecimento da matéria e intimidado pela autoridade causticante do Dr. Uva, foi uma chamada memorável!! Entrei mudo e saí calado! Talvez borrado também....
O Louro Rodrigues fazia parte dessa turma. Como tantos outros, consideravelmente mais velhos do que eu. O Benjamim e o Pató, sobretudo.

Sabe bem recordar. . .

arnaldo silva
felizmente reformado
De A SILVA a 13 de Junho de 2007 às 13:57
As Hortas do Patacão.
As outras hortas dos Patacães deste país.
As hortas que havia e o que resta delas...
O seu peso na economia daqueles tempos e a falta dele nos tempos que correm.

Sempre que me desloco por este Algarve e por este País sou confrontado com a mesma desoladoura paisagem caracterizada pela ausência de agricultura, pelo ar de abondono que todos os campos nos oferecem ou pela desenfreada invasão urbanística que noutras áreas se vê patenteada.

E sempre duas preocupantes perguntas me se me ocorrem, a saber:

- porque deixou de ser rentável a exploração das hortas e dos campos de lavoura do meu País ?, e

- porque tiveram os filhos dos agricultores de se tornarem doutores deixando as terras sem elementos que a explorem?

Para responder a qualquer daquelas perguntas seria necessário escrever um grande tratado de economia, para o qual, obviamenete não me acho minimamente preparado. Mas não posso deixar de comentar que, nesta aldeia global em que o planeta está transformado, encontramos em qualquer mercado uvas do Chile, Kiwis da Nova Zelândia, melões da Colombia, batatas da Holanda, ...
Para não mencionar os produtos da vizinha Espanha que passou a abastecer mais uma província da Peninsula Ibérica, com a mesma facilidade com que já abastecia as suas.

Produzindo o sector agrícola um produto de consumo imprescindével para a sobrevivência do ser humano, pergunto-me, porque terá sido que por aqui se tenha abandonado a sua exploração?! E, parece-me, só a justificação da falta de rentabilidade não será suficiente.
Membros dos vários governos dos últimos lustres terão muitas responsabilidades na debamdada operada.

Obviamente, as transformações do tecido social têm também um forte peso nas causas que levaram ao êxodo rural. O natural desejo dos pais de verem os filhos presenteados na vida com um futuro que consideram ser melhor do que o deles, levou a que todos ansiassem por ve-los doutorados, fora da escravidão da terra, sem calos nas mãos. Por aí, talvez, tenha passado muitas das causas do triste panorama que nos é oferecido hoje. Atitude e desejo, nada condenável, naturalmente! Mas, considerando que numa sociedade não pode haver só doutores, sob pena de esta fenecer por falta de sustento, porque não terá havido sucessão de agricultores explorando a terra?!

Porque o desenfreado desenvolvimento urbanístico permitiu praticar preços de negociação de terrenos de tal forma elevados que não deixaram outra solução aos seus proprietários, por demasiado aliciantes, que não fosse o da venda.

Este factor, conjugado com o desinterese pelas terras dos directos herdeiros e pelo natural anseio de reforma do agricultor de então, forçada pelo inevitável apelo da vida limpa da cidade, levou ao caos que ora se apresenta.

Tenho pena! E tenho muito receio de que um dia não se tenha forma de gerar aqui o dinheiro suficiente para se comprar as uvas do Chile, as batatas da Holanda, os kiwis da Nova Zelandia, os...

O défice da nossa balança comercial aumenta todos os anos. O défice da balança de pagamentos aumenta na mesma proporção! A pouca indústria de que dispunhamos vai desaparecemdo, vomitamdo desemprego todas as semanas!

Estará alguém responsável pensando e analizando este fenómeno sócio-económico?!
Espero e desejo que sim. Por mim, pelos meus concidadãos. Mas principalmente pelos filhos e netos deste país.

O renascer das Hortas do Patacão deveria estar na mira de alguém com poder de decisão.
Que renasçam!

arnaldo silva
felizmente reformado


De SOUSINHA a 14 de Junho de 2007 às 12:05
Viva.

MUITO OBRIGADO.
BS

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