Segunda-feira, 14 de Maio de 2007

PARA REFLEXÃO

 
O texto que se segue é de Miguel de Unamuno, in 'Solidão'

O Solitário
 
O solitário leva uma sociedade inteira dentro de si: o solitário é multidão. E daqui deriva a sua sociedade. Ninguém tem uma personalidade tão acusada como aquele que junta em si mais generalidade, aquele que leva no seu interior mais dos outros. O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão. É a multidão individualizada, e é um povo feito pessoa. Aquele que tem mais de próprio é, no fundo, aquele que tem mais de todos, é aquele em quem melhor se une e concentra o que é dos outros.
 
(...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos, aquilo que não se atrevem a confessar, não já ao próximo mas nem sequer, muitas vezes, a si mesmos, aquilo de que fogem, aquilo que encerram em si quando estão em puro pensamento e antes de que possa florescer em palavras. E o solitário costuma atrever-se a expressá-lo, a deixar que isso floresça, e assim acaba por dizer o que todos pensam quando estão sozinhos, sem que ninguém se atreva a publicá-lo. O solitário pensa tudo em voz alta, e surpreende os outros dizendo-lhes o que eles pensam em voz baixa, enquanto querem enganar-se uns aos outros, pretendendo acreditar que pensam outra coisa, e sem conseguir que alguém acredite.

BIOGRAFIA
 
Miguel de Unamuno y Jugo (29 de Setembro de 186431 de Dezembro de 1936) foi um escritor, poeta e filósofo espanhol.
Nasceu em Ronda del Casco Viejo (Bilbau) e faleceu em Salamanca. Considerado a figura mais completa da Generación del 98, um grupo constituído por nomes como Antonio Machado, Azorín, Pío Baroja, Ramón del Valle-Inclán, Maetzu, Ganivet, entre outros.
Estudou na universidade de Madrid onde tirou o curso de Filosofia e Letras e mais tarde obteve a cátedra de grego na Universidade de Salamanca. Dez anos depois foi nomeado reitor da universidade salmantina.
Foi conhecido também pelos sucessivos ataques à monarquia de Afonso XIII de Espanha. De 1926 a 1930 viveu no exílio, primeiro nas Ilhas Canárias e depois em França, de onde só voltou depois da queda do general Primo de Rivera. Mais tarde o General Francisco Franco afastou-o novamente da vida pública, devido a críticas duras feitas ao General Millán Astray, acabando por passar os seus últimos dias de vida numa casa em Salamanca.
 
MEU COMENTÁRIO.
 
Sem pretender por em causa a posição que Unamuno assume no assunto em que se pronuncia, eu não navego, duma maneira geral, nessas águas da solidão. Já lá tenho estado algumas vezes e intensamente, ou seja, voluntariamente solitário, mas com total domínio da situação. E estarei lá enquanto me der na real gana. Às vezes até melhoro o meu estado de espírito porque o meu organismo recebe bem essa mensagem de isolamento. Como diz o músico João Gil:- gosto de me envolver no silêncio do dia ... numa igreja.....
 
Eu penso que este solitário de Unamuno será um homem que andará muito perto de ser um doente. Para mim a vida é alegria e mesmo na solidão quero-a à minha volta. A minha postura na vida não é bem aquela daquele espanhol, que determinado escritor contou, que viveu e morreu estando-se nas tintas para tudo. Não, a minha preocupação é viver no campo da Honra.  
 
Diz Unamuno: “O génio, foi dito e convém repeti-lo frequentemente, é uma multidão....” Sim, mas eu não quero ser essa multidão. O génio tem um desequilíbrio enquanto eu luto por ser um indivíduo equilibrado. Uma vez aí, tento entender quais são as minhas possibilidades e limites. E depois instalo-me e vou para a luta com as minhas armas. Mas sempre consciente de que não posso entrar em todas as batalhas... Comigo não há frustrações... essa é a minha grande vitória, obtida no respeito pelos outros e do respeito dos outros. 
 
“ (...) O que de melhor ocorre aos homens é o que lhes ocorre quando estão sozinhos...” mas isso, é verdade, não se situa no campo da solidão mas sim no campo da decisão. Para agir e tomar medidas precisamos de lucidez e frieza. E o ruído quase sempre agride.. Acho bem que um homem decida estando só; não solitariamente.
 
 
João Brito Sousa
publicado por SOUSINHA às 06:34
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