Sexta-feira, 15 de Junho de 2007

A VIDA DIFÍCIL DOS MIÚDOS DO MEU TEMPO


Texto  de ARNALDO SILVA

 

 

 

A propósito da vida difícil dos "miúdos" do meu tempo, fui visitado pela evocação de um período da minha vida, situado ali por volta dos dez aos onze anos da minha existência, que deixou retratado, em pinceladas de um bom óleo, como era crua e madrasta a vida dos putos daqueles tempos.

 

 Acabado de fazer a quarta classe na Escola Primária de Tavira, cidade onde aboletava em casa dos meus avós maternos, por ser orfão de mãe, vi-me transportado para passar a viver em casa do meu pai, num lugarejo entre Vila do Conde e a Póvoa do Varzim. O sítio não era de todo inóspito porquanto a nossa casa, uma casa de ferroviário junto a uma passagem de nível, na estrada que levava a Famalicão e se cruzava com a linha ferroviária da Póvoa-Porto , estava circundada por umas três pequenas quintarolas e uma "bouça", isto é, umas terras incultas cobertas de matos e tojos.

 

Numa dessas quintarolas, vivia uma família de cinco elementos, um casal com dois filhos e uma tia que se dedicavam â exploração da terra, extraindo daí os proventos para a subsistência da família. Os filhos, um rondando a minha idade de então e o outro um anito mais jovem, tinham que "assistir" os pais na quotidiana e difícil labuta de fazer a terra transformar sementes inertes em agradáveis e imprescindíveis consumíveis.

 

Para poder levar a cabo a "assistência" de que os pais careciam, o filho mais velho mal acabou de frequentar a escola primário lá do sítio onde não conseguiu obter o diploma da quarta classe, meteu mãos à obra. O mais novo seguia-lhe as pisadas e sabia muito mais de como ordenhar uma vaca ou de deitar milho ao rego do que juntar vogais e consoantes para fazer uma simples redacção.

 

Na ignorância própria daquela minha idade, o facto de ver diariamente dois putos envolvidos em tarefas de adultos não me provocava propriamente uma repulsa indignada, mas tão somente uma revolta por não puder dispor da companhia deles para as necessárias brincadeiras. Ignorante, egoísta mesmo, protestava e lamentava que eles não pudessem perfazer o número de elementos que desse devido corpo às magras equipas de futebol que, na estrada referida, sempre disputavam um renhido encontro com uma bola de trapos.

 

O que me repugnava verdadeiramente era ve-los desempenhar uma tarefa que estava destinada àqueles dois miúdos, tida como primordial pelos seus pais, mas que eu não conseguia entender, por ser oriundo duma região onde tal prática não era usual. Tratava-se de apanhar a bosta das vacas para ser utilizada sobre o mato das cortes - entenda-se estábulo - com o fito de, pelo milagre da acção bioquímica, gerar um fertilizante natural para as terras.

 

Muito mais saudável, diziam-me, do que os adubos químicos. O pior, o degradante da questão, é que o apanhar que referi se tem que entender como "utilizar as mãos para o acto". Aqueles dois miúdos tinham que utilizar as suas mãos para não "ferir" a terra e recolher apenas a bosta dos animais para uma giga, transportando-a depois para o devido local. Aquilo, sim, era vida difícil de "miúdos"!! Certamente fizeram-se homens e transportaram a tradição para os seus filhos.

 

Era assim a vida da maioria dos miúdos do meu tempo. Felizmente que o tempo traz novos tempos, renovando conceitos, tradições e necessidades. Felizmente!

 

analdo silva felizmente reformado

publicado por SOUSINHA às 15:02
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